Sinto muito



Falta-me o ar, a respiração. Prendem-me os batimentos cardíacos, que aceleram. Dou pulos para que passe, mas cada vez tende a aumentar mais. Revolto-me. Esmago as vontades. Minto com sanidade. E. Nada!
Estou a tentar agora, sabes. Redimir-me dos meus erros. Voltar atrás será impossível. Se há coisa que não aceito é arrepender-me, então finjo para mim própria que não me dói.
Mas, sabes uma coisa? Está a custar-me tanto perceber que não devia ter-me apaixonado por ti. Nem devia ter-te mostrado isso. Não devia ter aceitado o teu convite para sair, nem devia ter-te beijado. Agora que vejo, é tarde. Já se faz tarde para pensar no que não devia ter feito.
Estou a tentar afastar-me de ti, sem te mostrar que errei. Sem te mostrar que realmente o sentimento apareceu aqui dentro, e vai custar tanto a sair.
“Sabes o que se sente quando se gosta de alguém? Imagina o que é estar longe de quem gostamos…” Disse-te hoje.
Não quero perder a tua amizade, que se faz tão importante na minha vida desde a primeira vez que trocámos corda. Foi no meio do desapego ao passado, e nas entrelinhas da carência, que no final das contas, acabei por te querer mais a ti do que pensar no que me deixou para trás.
És a melhor pessoa do mundo, tudo porque me tens feito bem. Porque tens sido o alguém que eu nunca tive. A personagem romântica que eu mais queria. Que eu sempre quis. E que ainda quero. E sempre vou querer.
No fim disto tudo… Não te posso ter.
Não devo mencionar nos espacinhos desta carta os porquês que se escondem atrás deste medo absurdo de ficar contigo. E na impossibilidade de te ter ao meu lado, que é onde estarias melhor. E eu ao teu lado, que é onde respiraria melhor.
Na verdade, eu não posso dizer-te. Nem posso escrever aqui, porque provavelmente tu irás ler isto, e eu não quero que me faças mais perguntas acerca disto. Que me faz sofrer, mais uma vez, por amor.
Bem disse a minha mãe, que iria sofrer tantas vezes do coração. E que todas elas seriam histórias diferentes por contar, que eu nunca iria aperceber-me que estaria a pisar o mesmo terreno – do amor.
Amor é monstro. E quanto mais forte, mais perigoso. Ele aproxima-se tão lento e tão rápido, que é impossível nos apercebermos.
Mas sim, podes escrever. Acabei, assim do nada, por te querer mais a ti do que a quem já quis durante tanto tempo nas saudades. Agora resta-me meter na cabeça que as saudades vão ter o teu nome, o teu paladar, a tua presença constante no meu pensamento. O teu sublime olhar, tão doce e tão cuidadoso.
Durante este tempo, em que nos temos conhecido, aos poucos, tenho visto coisas em ti que desconhecia. E és, de facto, um ser divino. Não és perfeito, felizmente. Podias só ser alguém diferente num único aspeto, que é o que os meus progenitores nunca aceitariam descobrir. Mas se nasceste assim, quem te poderá mudar? Não mudes, porque haverá alguém que ainda te vai aceitar tal igual tu és.
Eu até te aceito, mas existem coisas superiores à minha vontade, às quais não posso ir contra.
Tenho alguma lágrima aqui, algures no canto do olho. Está prestes a fugir, mas eu não deixo, ok? Tu sabes que eu sou forte. Não tão forte quanto queria, mas sou.
Não queria magoar-te. Preferia agora que não gostasses de mim tanto o quanto mostras gostar. Porque, mais tarde ou mais cedo, acabamos por quebrar estas linhas que nos unem física e verbalmente. Contudo, no pensamento e no coração, permaneceremos ligados durante o tempo que o universo quiser.
Não me digas agora, quando te aperceberes disto, que me odeias. É que amar-te seria mais forte que eu. O mundo está cheio de fracos, e eu vou ser fraca porque decidi ser forte. Decide ser forte por mim, também. Quem sabe um dia compreendas que nem tudo o que se quer podemos ter. Não por não estar ao nosso alcance, mas porque realmente não tem de ser.
A cada toque teu, uma saudade irá ficar. A cada beijo, uma solidão. A cada palavra e sorrisos teus, um vazio meu. Já faz imenso tempo que não escrevia tanto, e agora o tanto que escrevo tem o teu apelido.
Eu diria “ninguém merece”, como sempre. Mas, não mereço? Eu é que errei.
Deixei-me levar por ti, que me fizeste voltar a acreditar no amor. E, pumba, voltei a cair. Não por ti, mas por mim que não te posso aceitar.
Agora vai faltar-me a tua presença. Vai faltar-me a tua gargalhada estúpida que me fazia alegre a cada instante. Embora estivesse sempre a ser arrogante contigo, e cada vez mais chata, tu mostravas que tinhas toda a paciência do mundo para mim. É sentimento. Eu sinto.
Realmente eu sinto muito.
Perdoa-me por te mandar embora, ainda que te queira perto.

Beijo.

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