No fundo de mim
Estamos contidos por um mundo que faz doer. Escraviza-mos a alma, porque a temos. Ainda.
As lágrimas são uma constante que nos tira o fôlego e que nos fortalece. As dores, quanto maiores, menos nos doem. É um passo, cada vez mais perto, da luta por vencer. Nunca lutamos em vão. As feridas nunca estão presentes sem um motivo. A alma nunca se mata por querer desaparecer. Mata-se porque quer viver. Mata-se porque quer crescer. A alma ressuscita a cada fim de etapa. Somos corpos que camuflam um interior profundo que todos desconhecem. Não tem olhos, nem sabor. Não tem cheiro, nem cor. Tem uma essência nunca antes perceptível a quem pensa, mas sim a quem sente.
Ultimamente andamos tão concentrados no fútil. Nos papéis. Nas canetas. Nos bolsos, e carteiras que nos consomem energia e paciência. Onde está o que nos preenche o fundo do peito? Aquilo a que chamam calor? Ultimamente andamos tão frios, e tão desligados do mundo. Desligá mo-nos de quem somos, e deles que são, para nós, o que somos.
A cada dia que passa, sinto-me, de alguma forma, diferente. Sempre no bom sentido, embora passe as passas do Algarve. Quanto maior a luta, maior é a recompensa. Quanto mais lágrimas, maior o rio para me banhar. Quanto maior a chuva, mais lindo e apreciável será o sol. Quanto maior a tempestade, maior será o valor que irei dar à bonança.
Desde muito pequenina que na ambição de ser, vou tendo. Na vontade de crescer, vou amadurecendo. Na vontade de ser amada, vou amando.
São raras as vezes que damos alguma coisa, e a recebemos de volta.
Nunca podemos estar à espera que se amar-mos, vamos ser reciprocamente amados. Se valorizamos, não devemos estar à espera de ser valorizados.
Na verdade, é impossível não esperar. Porque fazemos aos outros aquilo que esperamos que nos façam a nós. Pelo menos esperamos que nos façam o mesmo quando as nossas atitudes são boas, claro.
Contudo, com o tempo e a vontade de ser invencível, apercebe mo-nos que o que fazemos está na nossa consciência. O que somos, está no nosso coração. Aquilo que plantamos, colheremos no futuro por obra do destino.
Aquilo que os outros fazem, não nos compete. Aquilo que os outros desdenham, não nos diminui.
Somos tão nós mesmos, para quê querer ser o outro?
Já amei tanto, esperando que o outro me beijasse os pés tal igual eu fazia. Queria que me reconhecessem cada atitude, e que não esquecessem cada olhar meu. Cada frase minha. Cada toque e passo meu.
Mas, com o passar das milésimas horas que me vão pela frente, mudei.
Na verdade, não preciso que me beijem os pés. Quando beijo os pés a alguém, não o espero de volta. Não preciso que me reconheçam as boas atitudes, porque há algo maior lá em cima a observar-me a tomar nota do que faço. O meu olhar não deixa de ter brilho porque não o percebem desse modo. As minhas frases não deixam de ter eco e consistência só porque não as escutam. E os meus toques e passos não deixam de persistir só porque os desprezam.
Mas, com o passar das milésimas horas que me vão pela frente, mudei.
Na verdade, não preciso que me beijem os pés. Quando beijo os pés a alguém, não o espero de volta. Não preciso que me reconheçam as boas atitudes, porque há algo maior lá em cima a observar-me a tomar nota do que faço. O meu olhar não deixa de ter brilho porque não o percebem desse modo. As minhas frases não deixam de ter eco e consistência só porque não as escutam. E os meus toques e passos não deixam de persistir só porque os desprezam.
Mudei, mas estou convicta de que me falta tanto, mas tanto ainda para mudar. Falta-me tanto para viver. Tanto para crescer. Tanta para me tornar velha. E, se, apesar de tudo, alguma vez me tornar velha.
Independentemente daquilo que se passa comigo, a criança que há em mim é tão viva que parece que jamais irá morrer. Ela segue-me sempre, agarrada à minha perna. Nos dias mais tristes da minha vida, às vezes peço para ela largar-me e desaparecer, mas ela é tão querida, que nunca me largou. Fica somente quietinha ao meu lado, a observar-me e a dizer-me baixinho: "Tu és tão linda. Tão menina e tão mulher. És a minha mãe, e a minha irmã. A minha rainha. És tão forte, e tão sábia. És tão tu. És o que me pertences."
E com isto, ela faz-me feliz. Com isto, ela valoriza-me, Com isto ela ama-me. Com isto, eu amo a quem sou, porque ela pertence-me.
Ela está dentro de mim.
Eu sou o que está dentro de mim.

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