Pergunto-me. Porquê.






Já fui um rebento. 
Um rebento de alma. 

Fui uma menina alegre. Não por ter motivos, mas por ser forte. Já tive tanto para dar de mim, tanto para mostrar. Tanto para querer viver. 

E agora? O que tenho? 

Vejo sombras em estradas vazias. Que me descontentam por serem somente aquilo que são: sombras. São escuras. Não têm alma. Não têm um fundo para me desafiar. Não têm brilho para me iluminar. 

E agora, quem sou eu? 

Talvez seja as próprias sombras que vagueiam pelos caminhos a que me dou, desencontrada de mim. As escolhas de mim própria. De me fazer doer até à última, por ser tola demais. De me sacrificar até ao último segundo, porque amar nunca foi demais para mim. É que no fundo, ser única já foi bom. Ser única já me fez feliz, ainda que por instantes. Contudo, ser única faz de mim solitária. Ser única faz de mim a falha que se torna perfeita a raros olhos. O problema é a escassez desses olhos que me podem ver por dentro e valorizar isso. 
Na verdade, só queria dois olhos espertos. Que se apaixonassem pela personagem estranha que sou. Já foram tantas as saudades que me destruíram, que pensar em ti deixou de ser um problema. Tornou-me mais forte, mais fria. 
O brilho que emano, é pura máscara. Autêntico fingimento. 
Não sou assim tão feliz, apenas passo a vida a sorrir. Detesto lamentar-me, pelo contrário dos que me confundem com a menina da 'vida é bela'. 
Hoje, deu-se ao trabalho de me dizer "a vida corre-lhe bem". 
Foi um homem velho, barbudo. Talvez usasse moletas, não reparei. 
Mal caíram essas palavras, não hesitei. Caí numa absorção estupefacta de vozes de mim. Fiquei parada. O mundo parou. Não chorei, mas queria. Mas, não podia. Estava a trabalhar. Foi ele e mais uns tantos, que confundem o meu optimismo, com boa vida. 
Estou convencida que vivo num mundo que não é o meu. Não me encaixo de maneira alguma. Inventassem outro para mim, e eu ia-me já embora. É tão saturante ser aquilo que o mundo não valoriza, muito menos aceita. 
Sou uma pessoa feliz aos olhos dos outros. 
Acham que não me falta nada. 
Enganam-se. Tanto. 

Ou talvez sou eu que os engano tão bem.

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