Encontra-me no corpo e na alma
Tentasse não chorar, mas as dor continuaria lá.
Tentasse não amar, mas a vontade nunca desapareceria.
Tentasse mudar, e a mudança duramente apareceria.
Não mudaria.
Coração mole que nasce, endurecer é difícil.
Assim como o duro, morrer é quase impossível.
Quase, mas não é.
Não é. De facto, não é impossível.
E nada me faz mais forte do que sentir que o meu também pode endurecer.
O meu também pode ser frio quando é preciso.
Chega até a doer. Doendo, sem se fazer sentir.
É o melhor sentimento que se pode ter.
É viver na ironia. É mentir, porque não é bom.
Não é confortante. Não é quente, e o frio apavora-me.
Sentir o gelo entranhar-se nas pregas vocais que estagnam os passos.
A palpitação torna-se constante, e tão fugitiva que deixa de fazer sentido querer procurá-la.
Capas. E feixes. E mantas. Rendas. Laços e bermudas. Saias.
Lençol. Um corpo nu.
Só um toque, não suspiro.
Não me desmancho.
Não há gemidos - nem de prazer, nem de solidão.
Deito-me.
Seja no chão. No sofá. Na cama. Ou no corpo de alguém.
A sensação é a mesma - estou perdida. Sem sentir, sem suspirar.
Seja vontade, seja caridade. Seja amor, ou carência.
Nenhuma me faz ser assim tão intensa quanto devia.
Fugida de mim. Fujo de qualquer um que me tente encontrar.
Ando perdida já há algum tempo.
Difícil será fazer-me perceber.
Mesmo num toque, não me fazem sentir.
Faço-me sentir longe.
Se me quiserem encontrar, força.
Perco-me todos os dias.
As noites são piores.
No corpo é duro.
Na alma é escuro.
Luz, por favor.
E amor.