Vamos fugir quando apetecer
São as coisas que mais amamos que nos destroem. Então não nos podemos permitir amar tão fortemente. O desafio é aprender a amar sem sentir. É ser fiel sem querer nem pensar que será para sempre. É querer sem se prender. O desafio é gostar sem idolatrar. Beijar sem se amarrar. Olhar sem morrer. Lembrar sem morrer de saudades. Aprender a tocar sem temer o fim. É estar perto sem chorar quando estiver longe. É imaginar sem perder a vida. É amar sem deixar de se amar. É fazer feliz, e ser feliz até quando der. E quando acabar, a alegria terá de permanecer, porque a felicidade chegará brevemente. Seremos capazes de aceitar o desafio? Então que nos desafiemos a nós próprios.
Lembre-mo-nos, desde já, de que nada é para sempre, e que o para sempre é exactamente nada. Estejamos conscientes, desta forma, de que cada passo é um desafio para chegar mais longe, e cada queda uma nova e fresca aprendizagem. Fresca, porque doerá bastante, sem dúvida de cicatriz profunda.
Agora somos capazes de ver que aceitámos tudo isto sem nos apercebermos. A vida aceita por nós, e nós aceitamos por ela. Ela põe a roleta do tempo em contagem decrescente e em constante movimento. Nós aceitamos mesmo sem assinar o contrato, porque já nascemos com as cartas na mesa e só nos resta jogar. Existem regras mas ninguém se importa, por isso faremos de conta que não existem. Jogaremos sem parar, até ao fim, porque quando pararmos será o único fim. Sendo assim, vamos respirando e concordando, sem dizer sim nem não; e, até tudo acabar, iremos perder mais vezes do que poderemos ganhar. E, iremos estar garantidos de experiência e histórias para contar. Muitas memórias, para nos fazer sorrir e chorar, tendo assim a certeza de que, sempre estivemos vivos durante todo o tempo em que estávamos cá a observar a única perspectiva do universo que todos conhecemos.
Cada dor faz-nos mais fortes. Destrói-nos e mobiliza-nos. Leva-nos mais longe. Traz-nos vida assim que morremos, e logo depois ressuscita-nos mesmo sem termos forças. Mesmo sem tempo de respirar, uma nova etapa já começou e, novamente, ganhamos uma oportunidade de fazer melhor. Então que venham os beijos e que nos aqueçam os abraços. Que demorem as provocações e as coisas más para que aprendamos melhor. Que nos dêem boas lições. Que cometamos erros, porque depois encontraremos a melhor música para relatar tudo o que aconteceu. Encontraremos nos nossos vícios a melhor maneira de escapar à dor e a anestesia será geral durante pelo menos uma hora, ou um dia inteiro.
Mas que seja, mesmo que doa. Que quebremos todas as regras, porque realmente elas só servem para isso. Que venham mais abraços e que enrolem as palavras, e não se esqueçam agora de sentir, porque apesar de todos desejarmos ser imunes à dor ou ao toque, a vida deixa de fazer sentido se não nos sentirmos vivos.
Então que nos belisquemos quando quisermos acordar, e que nos iludamos da melhor maneira, pelo menos para saborear a alegria e o prazer. Que venham pratos requintados de morangos com chocolate ou apenas uma boa companhia ao luar da praia mais distante. Que fujamos todos quando nos apetecer, e que não tenhamos medo de voltar quando nos sentirmos sós e desprotegidos, porque o que custa ao homem é dar o braço a torcer. Consome-o assim o orgulho, com total propagação de um veneno insólito no interior do coração, ou da alma.
Então que não hajam problemas que não se resolvam, porque tudo é possível, e não há nada que não tenha uma solução. Até a morte nos pode dar forças, se pensarmos positivo. Se vermos o lado positivo disto tudo, perceberemos que quem parte para uma nova dimensão está bem, apenas não está mais ao nosso lado carnal. Quem parte olha por nós sem que nós os vejamos, e dão-nos as forças superiores que todos precisamos quando nos faltam as forças interiores.
Que cometamos assim todo o tipo de loucuras, e que amemos até ao mais ínfimo clamor. Que nunca nos falte coragem de falar nem fôlego para gritar. Que falemos sem pensar, mas também teremos de pensar muito bem até falarmos. Assim teremos de saber distinguir as melhores ocasiões para o fazer. Então que o façamos, e que paremos de dizer "amanhã", ou "talvez"... A vida é uma só, e esta frase toda a gente a dita. Também toda a gente diz "Aproveitemos hoje, porque amanhã poderemos não estar cá". Mas quem o faz realmente?
Agora devem pensar,
as minhas palavras cessam por hoje.

Comentários
Enviar um comentário