À primeira vista







Depois de já ter passado por tanto, agora arredondo os prazeres e as virtudes. Agora quero esquecer o quanto já doeu. Esquecendo as dores, darei espaço para as coisas boas passarem sem constrangimento. A verdade é deveras dura de se entender. A realidade ainda mais complicada. Hoje não me dou por tão fácil. Um simples olhar avisa-me para a tentativa da entrada de um desconhecido, e eu tenho de me precaver.
Digo com sinceridade que o amor já me matou por dentro, e se ressuscitei deixei a vida para trás muito cedo. Falo de calor, emoção e aventura. Mistério e rosto corado. Palpitações constantes, coração que salta pela boca. Também falo de cartas de amor, música e silêncio de olhares que falam mais que bocas constantemente falando.
Agora eu sei que pairei sobre os corações alheios, mas nunca pousei neles. Apaixonei-me por personalidades fortes, e pessoas que nunca se deram ao trabalho de me conhecer verdadeiramente, por dentro e sem medos. Duvidei das verdades do destino, e dos sinais de Deus. Quis encontrar respostas onde não existiam. Onde apenas existia um nada, eu fazia crença de mistério e caminho desenhado. Acreditava no porquê escondido, mas tudo aconteceu como teve de acontecer, e nem tinha uma resposta oculta como eu queria acreditar. Foram dores que me fizeram crescer e amadurecer.
Hoje estou apaixonada. Não, não estou apaixonada de todo. Poderia estar se me permitisse, mas não quero. Conheci um rapaz há pouco tempo, e ele tentou, mesmo sem querer, tirar-me do sério e enlouquecer-me com aquilo a que chamam amor à primeira vista. Mas estão loucos? Louca seria eu se caísse nessa armadilha novamente. Nem paixão, quanto mais amor.
Mesmo lúcida, o coração bateu mais forte. Não me deixei levar, mas deixei-me cair. Não me magoei, mas fiquei com a vontade na boca do estômago e as borboletas a fazer-me cócegas na barriga. (Que coisa tão parva, logo eu que não tenho cócegas…).
Mas quem é que não sabe o que é estar apaixonado? É sentir o beijo mesmo sem tocar. É abraçar sem se aproximar. Um simples olhar consegue deixar-te estonteada, quem sabe ele até perceba, mas eu não dou a entender. Se ele perceber é porque vê muito mais para além do meu exterior, e isso é um bom sinal. Quem sabe ele também esteja apaixonado como eu, e nem saiba.
Sim, tenho medo. Mas deixe-mos o medo de lado, porque eu não tenho medo. Pelo menos faço de tudo para que acreditem nisso, por isso acreditem: eu não tenho medo e ponto final. Não tenho medo de amar. Tenho medo de ser parva, porque, para ser sincera, a vida já me deu lições que cheguem. Tenho medo de errar, porque já errei o suficiente para não o fazer desta vez. Cometer o mesmo erro três vezes é autêntica burrice.
Todas as noites lembro-me do sorriso dele, e do olhar que me cativou quando o vi pela primeira vez. Personalidade orgulhosa, gosto subtil. Ar irónico, silêncio que cativa e agarra. Mesmo sem se movimentar deixou-me caída de vontade de ser alguém. Alguém para ele. Mas é tudo questão de emoção distante, sem um único toque. Isto é, sem um único beijo ou abraço, porque toques existem no ato de cumprimentar ou brincar. Sem intenção, desmonto-me completamente por dentro. Ninguém vê, só eu sinto.
A voz e o ímpeto de falar, a presença de Homem. Toque leve, e sem querer agarrou-me. Capaz de hipnotizar, eu tento fugir. Tento fugir, mas a vontade de ficar e deixar-me levar é maior. Mesmo no escuro conseguiria guiar-me como um autêntico íman. E se me pedisse para fugir até à lua, eu aceitaria. Para além de o querer tanto, eu amo a lua e a lua ama-me a mim.
Mas não me interessa. Ele até pode demonstrar que gosta de mim se eu me mostrar fácil. Agora tentemos de outra forma, e eu quero ver ele continuar interessado. Se eu for a rapariga mais difícil que alguém pode encontrar, onde o contacto físico é praticamente impossível e a troca de olhares escassa, é óbvio que ele perderá totalmente o interesse em mim. Não irá querer esforçar-se para ganhar um lugar na minha vida, visto que existem mil e uma por aí de tão fácil acesso.
Se é assim, então que seja assim. Correr atrás é inútil, se temos uma vida pela frente e podemos esperar pelo que realmente é nosso e nos merece. Podemos ficar sem esse doce onde o calor abunda e derrete, e a memória sedativa corrói. Se houver saudade, que se lixe a saudade. Amores nunca me deram de comer ao estômago, e a alma não morre de fome, muito menos o coração. Que congele, que fiquem frias as veias por onde corre o sangue que o coração bombeia. Podemos deixar isso acontecer sem problemas, porque na altura certa chegará o calor que inundará tanta frieza.
E que nos deixem acreditar nisto, porque nada acontece por acaso, e muita coisa está predestinada nesta vida. Temos nas linhas da mão escrita o que poderá acontecer. Pois então que nos deixemos guiar pelos caminhos incertos, que darão todos ao certo. Se for errado e estranho, será certo. E se for certo, estaremos vivos.
Parece filosofia, mas não se preocupem com o nome que dão a tanto mistério e palavra enrolada. A vida tem um início que, quem sabe, seja o fim sobreposto ao começo de uma nova vida, onde todos somos postos à prova sob uma força universal dominante. Nem aquilo que ouço, nem aquilo que vejo. Nem aquilo que sinto, nem aquilo que saboreio. Não é nada disso que me garante a eternidade, nem é nada daquilo que possamos imaginar que nos
garante a concretização dos nossos sonhos. Não é aquilo que nos faz sentir o coração acelerar que nos determina o que está certo. Não é, nem nunca foi.
Desde pequena que uma Cristina se transforma, e mais mil e quinhentas nascem e morrem. Outras reencarnam em corpos os quais não temos a certeza que os vemos. Serão carnais ou apenas a luz do universo que nos guia sem querermos acreditar? Tanta pergunta sem resposta. Às vezes não acredito que penso, nem acredito que me toco com vontade de sentir. Não acredito na paixão que me quer consumir. Não acredito em nada, e acredito em tudo ao mesmo tempo. Porque ao achar que não penso, acabo por me garantir que penso. Ao apaixonar-me já alguma coisa me consumiu por dentro, então porquê insistir? Porquê não acreditar?
Não precisamos de gastar a cabeça para chegar à conclusão de que basta pensar positivo e deixar acontecer. As coisas têm o seu tempo, e nós só podemos ter paciência. Se não nos deram isso, então que inventemos, porque iremos precisar tanto dela quanto precisamos de pernas para andar e de boca para nos alimentarmos, assim como do ar puro para respirar.

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