Fácil não é





Porque estou farta de correr e não sair do lugar. Estou farta de sofrer e não ver uma única gota salgada valer a pena. É muito difícil passar por tanto ao mesmo tempo e não abrir a boca nem para dizer um 'ui'. Ter preguiça de falar não só por ser chato, mas porque dói muito. Dói porque ninguém te consegue compreender. E os que fingem que entendem simplesmente fingem, sabe-se lá porquê.
Cheguei a encontrar muitas pessoas que me 'compreendiam', por isso não falo em vão. Não digo estas coisas da boca para fora. Digo-as porque é a realidade, e a realidade realmente é dura. Se custa ouvir, imaginemos senti-la na pele e no coração. Imaginemos a dor da queimadura. Imaginemos a sensibilidade frustrada, e o coração obrigado a congelar.
Não, não é de todo fácil. Todos os dias tenho muito em que pensar. Não porque queira, mas porque a minha cabeça não para, e o relógio muito menos. Vejo o tempo passar; as horas que se contam e que se perdem em porquês sem resposta. Em corações partidos, que no fundo, não passa somente de um: um coração remendado inúmeras vezes. Incalculáveis vezes. É dura a realidade. 
Todas as noites a minha cama guarda algum segredo que transporto dentro do coração. Não dá para esconder. Desabafo com a cama, no escuro, porque é no silêncio da noite que as minhas dúvidas se desenrolam, e que as minhas lágrimas deslizam pelo meu rosto. 
Chorar poderia ser uma vergonha. Gritar também. Poderia ser vergonha amar. Mas sofrer então seria o pior dos escândalos. Mas e se for? Vergonhas a mim não me preocupam, muito menos aquilo que as pessoas pensam. Na verdade as pessoas não passam todas de umas autênticas máscaras de Carnaval, e, na verdade, eu detesto o Carnaval.

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