Primeiro de tudo, amar




Incapaz de cessar.
Fogo que arde sem se ver. Já dizia ele, tão certo daquilo que lhe transbordava o corpo. A alma mal sabia que o sangue era a sua fonte de exacerbadas e súbitas vontades. Sabia que era preciso aprender a ler a carne, para poder satisfazer-se melhor numa leitura a dois. Tinha noção que ler era com os dedos e toda a robustez, jamais com os olhos. O cérebro pouco teria espaço para se intrometer. Se o fizesse, estragaria tudo.

Por entre os dedos se lhe ia, saturada de vontade. Fintavam-se em viril sedução. A febre aumentava em modo de explodir-lhes nos corpos o desejo de ficar. Gemiam-se, à média luz, em contraste da que lhes saia do manto físico. Por dentro queimavam rústicas e raras saudades. Convictos suspiros. Olhares desmedidos e cheios de brilho. Revirava os olhos. Entrelaçava os cabelos nas suas mãos, e puxava-os. Agarrava-lhe o tronco com toda a farta loucura que a estragava por dentro. 

Ávida rara. Regulada por irregularidades da libido. 
Raramente pecava por não saber pecar. Melhor o sabia fazer, sempre. Pecados raramente lhe faziam confusão. 
Epiderme com epiderme. A necessidade era ultrapassá-la e chegar à derme. Enfrentar a febre que a consumi-a. Tanto a ela, como a ele. 
Fulgor a médio termo. 
Clima de rosas e sadias horas para escrever-lhes o manto físico que lhes pertence. 
Normalmente ofuscados pelo tremer que se lhes fazia provocar a convulsão interna. 
Gemidos. Suores. Lençóis amassados. Uma feminina figura descontrolada de ser, em forma de ter. Um desenfreado masculino a trespassar-lhe os membros, tornando-a inteiramente sua. 

Numa cama fria que se aquece pelo feito de amar. Barba a tanger-lhe em cada toque. Mãos a fazer-se-lhe entoar brados agudos em tom estimulante. Muralhas em torno. Tornava-se melodia cada embalar de ancas. Cada encostar de lábios. Húmidos afagos. Gélidos arrepios. 

Mal sabiam que pouco seria tudo aquilo se algo não se intrometesse. No âmago do peito lá se fazem entrar, devagarinho, e ficar por quanto tempo tiverem como intenção. Ou. por si só, ter de ser. 

Nada seria assim, se não houvesse calor no centro. Centro do peito. 
Nada ficaria por tanto tempo, se fosse só frenesi. 
Sendo que é fascínio depois de amar. Depois de ficar, torna-se excitação. Torna-se arrepio. Torna-se loucura. Torna-se apego. 

Ruas da cidade que circula a menina sem vícios. Torna-se viva depois de se modificar, e voltar a sentir que é possível viver sem estar sempre a condoer-se. 
Sabia que tocar-se podia até ser bom, mas rapidamente isso se tornaria tristeza. Estar sozinha sem ninguém para saber a cor dos seus prantos, seria de certo um deserto insuportável. Teria sede. Como seria se não pudesse cessar essa necessidade? De abraçar a quem ama. De olhar no fundo dos olhos, e permanecer uma eternidade. De rir, e pedir mais. De ser alimentada por alguém que sabe quando eu já consegui ou não engolir. E que sabe esperar. Que sabe dizer o quanto quer estar, e que sabe gritar nas horas certas. Que sabe chorar por mim. Que sabe não virar as costas. Que sabe ser quem é, e mesmo assim eu gostar tanto. 

É tanto por ser tão pouco. 

Amar assim, ficar enfim. 

Sem espaços, sem dúvidas. 



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